Há vida além da doença

Enquanto crescia, “haja saúde” era o cumprimento que mais me lembro de ouvir entre os adultos. Apesar de naturalmente também ter curtos períodos em que adoecia, com os surtos comuns a qualquer outra criança, parecia-me um pouco exagerado elevar-se o tema da saúde a uma saudação de eleição

Com o passar do tempo foi-se tornando claro que nem sempre a doença dura uns poucos dias, e que por vezes deixa marcas, umas mais condicionantes do que outras.


Há doenças que não são só uma doença, também implicam uma mudança brusca e imprevista numa vida que até então estaria aparentemente sob controlo.


A patologia oncológica é provavelmente a que mais se destaca nessa categoria, seja pela sintomatologia, efeitos secundários da terapêutica, ou pela ideia de fatalidade que lhe está associada. Este último factor está tão associado à patologia que frequentemente são vividos como um só, ter cancro parece uma condenação à morte.


Todas as alterações que o processo terapêutico acarreta são um problema invasivo que tende a ocupar a mente e o quotidiano do paciente, ameaçando a qualidade de vida porque tudo gira em torno da doença - a saúde e a mente tornam-se a doença. Os sintomas físicos provocados pela doença, o desconforto causado pelo tratamento, o medo pelo futuro, a necessidade de pensar constantemente no problema para tentar ganhar uma sensação de controlo no que se passa, e todo um conjunto de preocupações que parecem não ter fim.


Este é o maior risco psicológico da doença, a personalidade da pessoa ficar totalmente contaminada por uma identidade de doente.


No caso da mulher, e especificamente no cancro da mama, existe um factor agravante, porque devido ao valor simbólico do seio também afeta a auto-imagem relativa à maternidade e feminilidade.


A ideia da perda do seio tende a despertar sentimentos de incompletude, a paciente não se sente inteira como mulher e sente-se inferior quando se compara com as mulheres saudáveis. Também é comum o receio de ser desvalorizada ou abandonada pela família, amigos e pelo companheiro, até pela agravante de uma cultura que ainda associa o papel social da mulher a uma função cuidadora, enquanto o seu direito a ser cuidada fica subvalorizado. É comum a mulher distanciar-se das suas necessidades enquanto paciente por ficar preocupada se, por estar doente, estará a ser uma boa profissional, mãe, cuidadora do lar, boa esposa e parceira sexual.


Embora o surgimento de receios seja natural, não é saudável que as pacientes se mantenham presas a fantasmas e fantasias que as distanciem da própria identidade e necessidades, pelo que devem ter ajuda para se adaptarem às novas circunstâncias.


Felizmente existem entidades que disponibilizam diversos recursos que trabalham no sentido de facilitar a compreensão da doença, grupos de apoio em que as pacientes podem partilhar a experiência emocional e ter contacto com pessoas com experiências semelhantes, consultas de apoio psicológico, entre outros.


Programas de intervenção como o InMAMA Group, destacam-se ao focar a mulher que existe na pessoa doente, promovendo a reconstrução da auto-imagem diferenciada da patologia e, acima de tudo promovendo a autonomia da pessoa para que não fique emocionalmente dependente dos apoios que se habituou a ter durante o processo de tratamento.


É uma ferramenta que facilita a relação entre técnicos de saúde mental e pacientes, no objectivo de transição e recuperação de uma identidade de pessoa-doente para mulher que está em reorganização da vida, recuperando um estilo de vida com qualidade.


A existência de ferramentas que garantam qualidade de vida nos processos de recuperação da doença são essenciais, e um programa focado na autonomização das pacientes é uma mais valia.


Visite o meu site: http://www.nunosousa.pt/

3 comentários

  1. Muito obrigada caríssimo Nuno, o programa foi feito com esse intuito e revelou-se uma mais valia, pelo que ficamos gratas pelo reconhecimento. Esperamos que possa chegar a muitos profissionais e a muitas doentes, capacitando-as a uma melhor qualidade de vida. Bem-haja!

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  2. Obrigada Nuno pela sua abordagem a este assunto. Como profissional e também como doente oncológica, cancro da mama, posso comprovar tudo o que escreveu, pois vivi todos esses momentos. Tendo o conhecimento sobre o que se iria desenvolver e sentir, pude recorrer também eu, ao apoio profissional para ultrapassar os piores momentos. Mas os medos ficam. Bem-haja.

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  3. Obrigada Ana. Estou desejosa de conhecer a obra que o InMama Group está a lançar, certamente será uma ferramenta valiosa. Como posso vos contactar directamente ? Obrigada. Votos de sucesso com a vossa obra!

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