”Não é mau feitio. É o pós-cancro.”, um texto de Marine Antunes

Chamo-me Marine Antunes, tenho 25 anos e, aos 13 anos, foi-me diagnosticado cancro. Depois de uma batalha entre mim e o meu cancro, com algumas vítimas pelo caminho (os meus lindos cabelos, por exemplo), saí vencedora, com direito a medalha e a prémio final – uma nova oportunidade para aprender a viver.

Voltei à normalidade dos dias, com a esperança (e ingenuidade!) que depois do cancro tudo voltásse a ser como era antes. Não foi nem poderia ser. A Marine pós-cancro tinha mudado, claro que tinha mudado. Tinha visto e cumprimentado a morte, tinha perdido amigos e companheiros; tinha aprendido mais do que era suposto (aos 13 anos só me deveria ter sido exigido que decidisse qual o rapaz mais bonito da turma), tinha vivido mil vidas, dentro de uma vida ainda tão pequenina.

Lembro-me que, neste processo, quase não chorei. Prometi a mim mesma ser forte, tão forte, ao ponto de bloquear o medo, as dúvidas, o choro. Não queria assustar os meus já assustados pais, não quis pesar-lhes a vida, mesmo pesando eu, só 43 quilos. Que estupidez tão grande. Um altruísta pensamento sim, mas estúpido. Naturalmente, que todas aquelas emoções guardadas, armazenadas como se fossem latas de atum, que temos em casa e que nunca usamos, acabariam por sair, a qualquer momento e fora do contexto! Tantas lágrimas engolidas e pensamentos que nunca tinham sido partilhados, ecoavam em mim, prontinhos a revoltarem-se e a sairem à rua.

Quando já não era suposto, quando já estava “tudo bem”, quando já não fazia parte do guião estar assustada porque, afinal, “o pior já passou”, quando os telefonemas acalmaram, as visitas diminuiram e a vida voltou à sua “normalidade” , foi aí, nestes “quandos”, que os medos viram a luz do dia.

Lembro-me perfeitamente, quando os meus pais começaram a dizer que eu precisava de ajuda. E como qualquer adolescente que se preze, comecei por revoltar-me com os meus pais, por considerar uma injustiça tremenda terem a ousadia de me dizerem, que eu não estava bem. Afinal, ESTAVA ÓPTIMA (sim, era assim, aos gritos, que eu mostrava que estava óptima). Eles, como todos os bons pais que se prezam, ignoraram as minhas chantagens emocionais e levaram-me a uma psicóloga. E foi aqui que, depois de alguma resistência inicial, fui, aos poucos, deixando cair a capa e fui chorando o que ainda não tinha chorado e partilhado o que ainda não tinha partilhado. Senti, pela primeira vez, que podia sentir. Que era normal ter medo. Que os fortes também duvidavam. Foi exactamente quando entrei em remissão que mais precisei de ter ajuda. E esse apoio emocional e psicológico que me foi dado, ajudou-me a reaprender a viver. Foi quando a vida seguiu, no seu rumo calmo, que eu tive de adaptar-me a uma rotina comum. Tive de aprender a voltar a adormecer no meu quarto cor-de-rosa e a deixar, num passado resolvido, a cama do Hospital, tive de aprender a voltar a fazer planos, a ter crises existenciais próprias da idade, a respirar de novo, porque afinal, estava viva.


Desejo o maior sucesso a este Programa de Intervenção : InMama Group, que se preocupa com os doentes no seu todo – o antes da doença, o durante e o depois e que apoia, incentiva e ajuda a que reaprendamos a respirar, afinal, estamos vivos.


Acompanhe o blog e página de facebook da autora - Cancro com Humor.

3 comentários

  1. Gostei muito do testemunho. obrigada

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  2. Caríssima Marine, parabéns por ter conseguido ultrapassar tudo o que passou com tanta saúde mental. Não foi fácil, nunca é. Muitas das pessoas entram na "conspiração do silêncio" de que falou, o que pode ser muito pouco saudável. Viva a vida e viva a partilha de experiências de vida!

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  3. Marine,
    Muito obrigada pela enorme generosidade de ter contribuído para o blog da Cegoc.
    Espero que o seu belíssimo texto ajude as pessoas com cancro a perceber que as emoções e os sentimentos fazem parte do processo e que não é possível negá-los ou ignorá-los e que, muitas vezes, é necessária ajuda para se saber lidar com eles porque, mais cedo ou mais tarde, vão surgir.

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