Quanto custa um teste?

Ao falar de instrumentos de avaliação psicológica é inevitável tropeçar na ideia de que os testes são caros. O preço dos testes é, por exemplo, uma das justificações mais frequentes para a utilização de material não original. Mas será que este raciocínio faz sentido?




Vejamos algumas questões acerca do custo dos instrumentos de avaliação psicológica:
  • O desenvolvimento de um instrumento de avaliação psicológica é um processo moroso, com várias etapas e que envolve diversos profissionais.

Por exemplo, e de forma muito resumida, para fazer a aferição para a população portuguesa de uma prova estrangeira é necessário obter autorização, junto dos autores ou editores da versão original, para realizar a aferição, traduzir materiais, fazer aplicações em número suficiente para constituir amostras significativas e representativas, analisar as propriedades psicométricas do instrumento, redigir manuais, desenvolver folhas de respostas, cadernos de aplicação e sistemas de correção e, finalmente, produzir e comercializar todos os materiais.

Estas etapas requerem o trabalho de vários profissionais. É necessário considerar que, ao trabalho dos investigadores e/ou autores da prova, soma-se o trabalho dos psicólogos responsáveis pela aferição, o de tradutores, de consultores especialistas, de aplicadores, de paginadores, de designers, de gráficas…

Durante todo o processo, que pode demorar desde alguns meses, para instrumentos mais simples, a vários anos para instrumentos mais complexos (como por exemplo, no caso de instrumentos com a WISC-III), existem, portanto, custos que a editora ou o investigador têm de suportar.

Além dos custos anteriormente referidos, por cada exemplar vendido, é pago um valor de royalties aos autores.
  • Quando os profissionais recorrem a material não original devem estar cientes de que estão a comprometer não só a qualidade da avaliação feita, como a desrespeitar os direitos das pessoas avaliadas. Pode encontrar mais informação sobre esta questão neste texto.


A utilização de material não original constitui uma violação dos direitos de autor, que em Portugal é ilegal e punível por lei (de acordo com o Código dos Direitos de Autor e dos Direitos Conexos e com o Código Deontológico dos Psicólogos Portugueses) e que, pode, portanto, acarretar consequências legais para o profissional.

Este tipo de prática tem também como consequência, em última instância, a perda de investimento, por parte dos investigadores e das editoras, na investigação e, por conseguinte, no desenvolvimento de novos instrumentos. Pode encontrar mais informação sobre esta questão neste texto.

O valor de um teste vai, por tudo isto, muito além dos custos associados aos seus materiais e à sua produção.


É um pouco como aquela anedota de uma empresa que estava com um problema grave no servidor e, por isso, ninguém estava a conseguir trabalhar. Pediram a assistência de um técnico de informática que chegou lá, olhou para o servidor e viu que o problema estava num cabo que necessitava de ser substituído. Resolvido o problema em menos de nada, o técnico pede pelo seu trabalho 5000€. Incrédulo, o Diretor exige que ele lhe explique como é que justifica um custo tão elevado quando a substituição do cabo tinha sido tão simples. O técnico refere que, efetivamente, o custo da substituição do cabo eram 100€ e que os restantes 4900€ correspondiam ao custo de apenas ele saber que era aquele o cabo que necessitava de ser substituído.

Quando um profissional compra um teste, não está a adquirir uma folha de papel ou um kit de materiais estandardizados, ou um bloco de notas. Está a adquirir todo o trabalho de criação, desenvolvimento, edição, publicação e distribuição que resultaram nessa folha de papel.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Escreva o que pretende e carregue na lupa para pesquisar