Recrutamento e Seleção: Como interpretar os resultados dos testes psicológicos



Apesar do tema da interpretação dos resultados dos testes psicológicos já ter sido amplamente discutido neste blog[1], trata-se de um assunto de importância fulcral para todos os profissionais ligados à avaliação psicológica.

Por esse motivo e devido às frequentes dúvidas que continuam a surgir neste domínio, designadamente, no âmbito da utilização de testes psicológicos em contexto de Recrutamento e Seleção, considerámos que não seria demais retomar este tema, desta feita incidindo na descrição dos passos para a conversão e interpretação dos resultados obtidos por um candidato numa bateria[2] de testes psicológicos.

Esta semana serão abordados os dois primeiros passos e, na próxima semana, os passos seguintes.

Passo 1 | Obtenção dos Resultados Brutos ou das Pontuações Brutas

Após a aplicação dos testes, o primeiro passo consiste em obter os Resultados Brutos. Os Resultados Brutos, dizem respeito, por exemplo, ao número de respostas corretas num teste de inteligência ou de aptidões ou ao somatório das pontuações atribuídas às opções de resposta escolhidas numa determinada dimensão de um questionário de personalidade.

Fazendo uma analogia com as consultas periódicas de pediatria, estes resultados brutos ou pontuações brutas correspondem ao peso ou ao perímetro cefálico do bebé.

Em Psicometria, tal como no caso que apresentámos da Pediatria, estes resultados, designados de resultados brutos ou de pontuações brutas, por si só, não nos dão grande informação.

Porque é que em Psicometria não é suficiente considerarmos os Resultados Brutos para o processo de tomada de decisão?

Porque, da mesma forma que o pediatra compara o peso ou o perímetro cefálico com dados de referência da população (de bebés com a mesma idade e do mesmo país) para perceber se o bebé está a desenvolver-se dentro dos padrões normais, também em psicometria é necessário compararem-se os resultados obtidos pelo sujeito avaliado com dados normativos de uma população com características semelhantes (por exemplo, em termos de nível escolar ou de área profissional), para percebermos se este se distingue (ou não e pela positiva ou pela negativa) dos outros na variável que está a ser avaliada (por exemplo a inteligência).

O que é que é necessário para se obterem os Resultados Brutos?

Dependendo do editor, a correção deste tipo de instrumentos pode ser feita com grelhas ou (e esta é a opção mais comum) informaticamente, bastando ao profissional introduzir as respostas dadas pelo sujeito avaliado no sistema informático.

Quando se trata de testes cuja aplicação é feita integralmente em formato digital, este passo não existe já que o sujeito avaliado introduz as suas opções de resposta diretamente na aplicação informática.

Passo 2 | Escolha da tabela de normas com a qual se pretendem comparar os Resultados Brutos ou as Pontuações Brutas

Voltando, uma vez mais ao exemplo da consulta de pediatria, após pesar ou medir o bebé, o médico tem de comparar estes dados com os dados normativos de bebés com a mesma idade. Certamente que não fará sentido comparar o peso ou o perímetro cefálico de um bebé de 6 meses com os dados de bebés recém-nascidos ou de 12 meses.

O mesmo acontece com os resultados dos testes psicológicos: o profissional tem de decidir com que dados normativos pretende comparar os resultados do(s) sujeito(s) que está a avaliar, de modo a poder tirar conclusões válidas sobre esses mesmos resultados e, consequentemente, sobre a variável que está a ser avaliada.

E aqui podem surgir inúmeras questões do género: num processo de seleção, devem comparar-se os resultados obtidos pelos homens com os dados normativos de sujeitos do sexo masculino e os resultados de mulheres com os dados normativos de sujeitos do sexo feminino ou devem comparar-se todos com a amostra global (que engloba sujeitos de ambos os géneros)? Esta questão é abordada num artigo anterior que poderá ser lido clicando aqui.

Como é que se sabe quais as tabelas de normas que os testes dispõem?

Qualquer instrumento que seja designado de testes psicológico (ou psicométrico ou psicotécnico) deve dispor de um Manual Técnico onde, para além da indicação das tabelas de normas de referência disponíveis, deve incluir informação detalhada acerca da caracterização de cada uma das amostras que lhes deu origem. Em contexto organizacional, as variáveis demográficas mais relevantes são, para além do número de sujeitos que incluiu a amostra normativa (e que nunca deverá ser inferior a 100), a média e a amplitude de idades, a distribuição segundo o género, o nível escolar (com ou sem especificação das áreas de formação) e, em alguns casos, a área profissional.



[1] Artigos sobre o tema da interpretação dos resultados dos testes psicológicos:

FAQ’s relativas à escolha de tabelas de normas

Percentil ou percentagem?

Correção, conversão e interpretação… que grande confusão!

O que fazer se necessitar de utilizar uma escala padronizada diferente da que consta no perfil de resultados…

[2] Bateria = conjunto de testes psicológicos.

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