Recrutamento e Seleção: Como interpretar os resultados dos testespsicológicos (parte II)



No artigo que publicámos na semana passada, abordámos os dois primeiros passos necessários para se poderem interpretar os resultados dos testes psicológicos, designadamente a obtenção dos Resultados Brutos (também designados de Pontuações Brutas, Notas Diretas ou Pontuações Diretas) e a escolha da tabela de normas com a qual se irão comparar os Resultados Brutos.

Hoje finalizaremos com os passos seguintes.

Passo 3 | Conversão dos Resultados Brutos em Resultados Padronizados

Com a correção dos testes e consequente obtenção dos Resultados Brutos (passo 1) e uma vez escolhida a tabela de normas que se irá utilizar (passo 2), trata-se agora de converter estes Resultados Brutos em Resultados Padronizados (também designados de Nota Derivada ou Pontuação Transformada).

Para tal, é necessário procurar, na tabela de normas escolhida, o Resultado Bruto (ou Pontuação Direta) obtido pelo sujeito e verificar qual o Resultado Padronizado (ou Nota Derivada) que lhe corresponde.

  • Que tipos de Resultados Padronizados (ou Notas Derivadas ou Pontuações Transformadas) existem?


Os Resultados Padronizados (ou Notas Derivadas ou Pontuações Transformadas) correspondem a um Resultado Bruto convertido numa escala estandardizada ou padronizada.

Tal como, quando se fala em temperatura, podem utilizar-se diferentes escalas (por exemplo, podemos medir a temperatura utilizando a escala Celsius, a escala Fahrenheit ou a escala Kelvin), também em Psicometria existem diferentes tipos de escalas padronizadas ou escalas estandardizadas.

Num artigo anterior, apresentámos em detalhe algumas das escalas estandardizadas (ou padronizadas) utilizadas em Psicometria (pode ver este artigo clicando aqui).

Por exemplo, se se pretender utilizar uma escala facilmente convertível em categorias qualitativas, podem converter-se os Resultados Brutos na escala de Notas Penta. Simplificando a explicação, as Notas Penta dividem a curva normal em cinco partes, conforme se pode verificar no exemplo abaixo.



Uma outra escala frequentemente utilizada é a Escala de Percentis. Poderá encontrar uma explicação detalhada do significado da escala de percentis neste artigo.

Simplificando novamente a explicação, a escala de percentis ordena os resultados da amostra em 100 partes iguais. Convém, no entanto, salientar que, como a curva normal tende para infinito, não existe o percentil 0, nem o percentil 100, pelo que a escala de percentis varia entre 1 e 99.

O valor do percentil corresponde à percentagem de sujeitos do grupo normativo que obteve um valor igual ou inferior ao do sujeito.

Assim, um resultado situado no percentil 75 significa que 75% dos sujeitos da amostra normativa obtiveram resultados iguais ou inferiores e que apenas 25% dos sujeitos da amostra normativa obtiveram resultados superiores. Imagine uma maratona com 99 participantes – ao último participante a chegar à meta corresponderia o percentil 1 e ao participante que venceu a maratona corresponderia o percentil 99. O participante que ocuparia a posição 75 (ou seja o percentil 75) teria alcançado um resultado igual ou superior a 75 participantes.

  • Como é que se faz a conversão?

Quando se trata de testes cuja correção é feita utilizando um sistema informático, este processo é automático. Após o profissional introduzir as respostas dadas pelo sujeito avaliado e escolher a tabela de normas com que pretende comparar o resultado, o sistema informático devolve, automaticamente, quer os Resultados Brutos (ou Pontuações Diretas), quer os Resultados Padronizados, conforme poderá verificar-se no exemplo abaixo.



Quando a correção é feita manualmente, há que procurar o valor da Pontuação Direta (ou do Resultado Bruto) na tabela de normas escolhida e que, certamente, fará parte do manual técnico do teste.

Imaginemos, por exemplo, que um sujeito licenciado em gestão obteve os seguintes resultados nos diferentes testes que compõem a bateria BAC – Bateria para a Atividade Comercial.



Agora, basta procurar cada um destes valores na tabela de normas escolhida e ver qual o resultado padronizado que lhe corresponde.



Assim, no teste de Compreensão Verbal, o resultado obtido pelo sujeito avaliado corresponde ao Percentil 75; no teste de Memória e Compreensão de Textos, o resultado corresponde ao Percentil 90 e assim sucessivamente.


Passo 4 | Interpretação dos Resultados

Uma parte da interpretação já foi explicada no passo 3 aquando da clarificação do que são os resultados padronizados.

Nesta etapa trata-se de traduzir o que significam os resultados padronizados em termos da variável psicológica que está a ser avaliada. Por exemplo, imaginemos que se trata de um sujeito que obteve, num questionário de personalidade, um resultado bruto na escala de Extroversão que corresponde ao Percentil 95.

Vamos assumir que, neste questionário, a definição de extroversão corresponde ao gosto por estar com pessoas, pelo entusiasmo e pela exuberância social.

Um percentil 95 significa que 95% dos sujeitos que compõem a amostra normativa com que os resultados foram comparados obtêm resultados iguais ou inferiores aos do sujeito avaliado e que apenas 5% obtêm resultados superiores.

Se estivermos a conduzir um processo de seleção em que o gosto por estar com pessoas seja muito importante, podemos concluir que esta pessoa claramente que se destaca das outras nesta variável.

A interpretação dos resultados deve ser sempre feita tendo em consideração a definição do constructo que está a ser avaliado, assim como a capacidade preditiva do tipo de instrumento que está a ser utilizado.

Por este motivo, não é possível fazer uma utilização adequada de um teste psicológico sem recorrer ao manual técnico da prova ou ao relatório interpretativo dos resultados que, eventualmente, o editor disponibilize.

2 comentários

  1. Julgo muito importante o domínio deste artigo para os gestores de pessoas.

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  2. Muito obrigada pelo seu comentário. Efetivamente o objetivo deste artigo é ajudar todos os profissionais que trabalham nesta área a dominar os aspetos que deverão ser tidos em consideração quando se trata de interpretar os resultados de testes psicológicos, principalmente na avaliação de pessoas em contexto Organizacional.

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