Gestão dos Riscos Psicossociais nas Organizações - a utilização do DECORE




Uma das preocupações atuais de qualquer gestor prende-se com a gestão dos riscos psicossociais no seio da sua organização.
O tema tem vindo a reclamar uma atenção crescente, por parte das entidades reguladoras europeias, das organizações e da sociedade no geral.
As projeções dos impactos para os indivíduos, organizações, sociedades e economia global, caso tudo se mantenha, são preocupantes considerando a saúde e bem-estar das pessoas, bem como por questões de produtividade e sustentabilidade das organizações.

De certa forma, podemos dizer que as principais preocupações relacionadas com o efeito que os riscos, associados ao contexto e conteúdo do trabalho, têm sobre o trabalhador sempre estiveram presentes, desde Taylor às teorias emergentes podemos encontrar esta inquietação plasmada, com objetivos, conclusões e considerações distintas.

Certo é que algumas caraterísticas dos riscos psicossociais os tornam particulares e distintos dos riscos ‘clássicos’ (físicos; biológicos; químicos), nomeadamente, e segundo RICK & BRINER (2000):

  • A ausência de níveis específicos de exposição a partir dos quais os riscos psicossociais são danosos; o enquadramento temporal da causalidade entre exposição > dano, frequentemente latente e não imediato;
  • A bipolaridade das suas consequências, o resultado não parte somente da ausência de danos até determinados graus de severidade (podem ter também consequências positivas);
  • A forma como o indivíduo vive as consequências dos riscos psicossociais é resultante, em grande medida, das suas características individuais e dos contextos extra-trabalho em que se insere.

Assim, pode-se compreender a dificuldade em integrar a avaliação de riscos psicossociais na gestão de riscos nas organizações, mesmo o primeiro passo – a identificação dos perigos – pode ser, no mínimo, desafiante e difícil de promover consenso entre as partes interessadas.

Percebendo as dimensões que podem estar envolvidas na manifestação sintomatológica e das consequências da exposição a riscos psicossociais (figura 1), é lícito concluir que também as abordagens na avaliação, e posteriormente intervenção, poderão beneficiar de uma segmentação que potencie os resultados e efeitos desejados em diferentes níveis.





Figura 1 - Dimensões onde se podem manifestar sintomas/ consequências

Sendo desejável que a organização (entidade empregadora) procure proporcionar a melhor conciliação possível entre as dimensões da figura 1, é inadmissível criar a expectativa de que a erradicação ou controlo total dos riscos psicossociais competem às medidas que incidam apenas sobre os fatores associados ao contexto e conteúdo do trabalho, que venham a ser tomadas.
Não obstante, estas medidas podem ser determinantes e, na nossa opinião, importa distinguir aprioristicamente um nível de intervenção primário, que possibilite a identificação e avaliação de riscos psicossociais de forma mais estrita à organização, sob o controlo e/ ou influência direta desta.
O questionário de avaliação de riscos psicossociais DECORE (2012) prova-se eficaz neste sentido, devolvendo escalas em quatro dimensões cuja circunscrição ao domínio organizacional é clara e comum – Controlo; Apoio organizacional; Recompensas; Exigências cognitivas.

Sendo certo que esta abordagem não afasta cabalmente alguns dos problemas que decorrem das caraterísticas individuais, como o estado emocional no momento do preenchimento; diferenças e preferências individuais; subjetividade e confusão entre insatisfação e perceção de riscos reais – o trabalho realizado para a validação e aferição deste instrumento consolida, também para a população portuguesa, os resultados obtidos e suporta as conclusões e medidas decorrentes da sua análise.

Outra das grandes vantagens deste instrumento reside, na indicação de dois índices que agrupam algumas das escalas – índice de desequilíbrio exigências-controlo; e índice de desequilíbrio exigências-recompensas –, aspetos amplamente estudados.

Por fim, é estabelecido um índice global de risco, sem prejuízo do pormenor de cada item, escala, e índices anteriormente referidos.

Para um único, ou um conjunto reduzido de decisores, esta abordagem possibilita uma visão mais sintética, que pode ser desdobrada em diversos níveis de pormenor, e potencia a compreensão da correlação entre medidas propostas e a avaliação feita.
Convenhamos, nem todos os gestores/ decisores nas organizações têm a formação/ experiência em psicologia necessária para revestir de sentido alguns dos resultados decorrentes de avaliações de riscos psicossociais mais centradas nos indivíduos, sobretudo se estas vêm com a pretensão de suportar decisões de escopo organizacional.

De igual forma, considerando que, apesar de poder ter grande amplitude de aplicação, considerando os domínios das escalas, é sempre possível (e desejável) que se sistematize a gestão dos riscos psicossociais noutros níveis, cada vez mais próximos do indivíduo. Outras técnicas poderão ser conjugadas sem concorrência de resultados, por exemplo: a análise de indicadores e estrutura burocrática; observação direta, entrevistas, etc.

Algumas das vantagens da DECORE são:

  • Simplicidade dos conceitos;
  • Agilidade na aplicação (individual/ grupal);
  • Camadas de pormenor que permitem a identificação de um valor global de risco, podendo ser compreensivamente desmultiplicadas até ao pormenor do indivíduo/ item.
  • Linguagem dominada pela generalidade de gestores;
  • Potencia a conjugação com outras técnicas de avaliação;
  • Permite integrar outros níveis de intervenção.

Analogamente, é proposta a imagem de uma pirâmide, cuja base é mais larga, composta por um produto de unidades, e vai estreitando até chegar à sua expressão unitária mais simples. De igual forma, podemos imaginar uma abordagem que vai ‘trabalhando’ em medidas e intervenções cuja abrangência começa por ser ampla e vai estreitando até ao indivíduo. Pois assim como até os egípcios sabiam que pirâmides invertidas não iriam funcionar de todo ou, pelo menos, a curto-prazo, também nas organizações, a gestão dos riscos psicossociais terá de ser desmultiplicada e sistematizada, no sentido “de todos até ao indivíduo”.



Referências:

Eurofound and EU-OSHA. (2014). Psychosocial Risks in Europe – Prevalence and Strategies for Prevention. Publications Office of the European Union, Luxembourg.

Luceño, L., & Martín, J. (2012).
DECORE – Avaliação de Riscos Psicossociais. Lisboa: CEGOC-TEA.

Rick, J., & Briner, R. B. (2000).
Psychosocial risk assessment: problems and prospects. Occupational Medicine, 50 (5), 310-314.


O autor:

Licenciado em Gestão de Recursos Humanos e Organização Estratégica e Mestrado Executivo em Human Resources Management pela Universidade Europeia, International Laureate Universities (antigo ISLA-Lisboa), especialização em Ambiente, Saúde e Segurança pela Universidade dos Açores, Mestrando em Ambiente, Saúde e Segurança.
Desde 1999 que trabalha na área de Gestão de Pessoas, a partir de 2010 desempenha funções de Diretor num estabelecimento hospitalar de uma IPSS na área da Saúde.
Formador na área de Gestão; Gestão de pessoas; Ética; Segurança e Saúde no Trabalho.
Auditor ISO 9001:2008; OSHAS 18001:2007 (NP 4397:2008); EQUASS (assurance)

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