Desafios à Construção, Adaptação e Publicação de Testes Psicológicos (I)


No 4º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses foi organizado um painel OPP dedicado ao tema “As dificuldades inerentes à edição e comercialização de testes e provas psicológicas”.

Foi a primeira vez que a OPP criou um espaço com o objetivo de permitir uma aproximação entre editoras e profissionais, no sentido de clarificar as etapas inerentes à adaptação e consequente publicação deste tipo de instrumentos e de desmistificar os motivos pelos quais os testes e as provas psicológicas têm preços aparentemente muito elevados.

A Editora Hogrefe agradece a coragem da Direção da OPP em discutir abertamente um tema bastante controverso, mas fundamental, considerando que a utilização de testes e provas psicológicas é indispensável à avaliação psicológica e que a oferta de instrumentos devidamente adaptados à população portuguesa está longe de corresponder às necessidades dos profissionais.

Neste artigo e no próximo, iremos sintetizar os dois tópicos abordados neste painel.

Começando pelas etapas que um processo de construção ou adaptação e publicação de um teste ou prova psicológica deve seguir, podemos identificar 4 grandes momentos:

1. Escolher o teste ou prova psicológica


Esta primeira etapa, aparentemente óbvia, deve ser cuidadosamente ponderada se o objetivo for adaptar ou construir um teste com o objetivo de o publicar. Esta ponderação deve responder às seguintes questões:



O teste a ser construído ou adaptado é suficientemente abrangente, de modo a responder às necessidades de profissionais que trabalham em diversas áreas? 

Antes de avançar para a construção ou adaptação de um teste, será deveras importante contactar um editor, com o objetivo de tentar perceber qual a utilidade efetiva do instrumento para o público a que se destina.

Nesta etapa, o editor pode ser um parceiro importante, uma vez que as suas sugestões podem ajudar a conceber/escolher um instrumento mais abrangente.
De referir que a abrangência das áreas de aplicação é um dos aspetos avaliados nos modelos de revisão de testes psicológicos, como é o caso do modelo utilizado pela EFPA Review Model for The Description and Evaluation of Psychological and Educational Tests

Qual o potencial de comercialização do teste? 

Esta questão está intimamente relacionada com a anterior: quanto mais abrangentes forem as áreas de aplicação do instrumento e quanto maior for a relevância do constructo avaliado para responder às necessidades dos profissionais, maior será o potencial comercial do teste.

Convém não esquecer que os editores de testes são empresas, com objetivos de rentabilidade, pelo que será difícil a um editor investir na publicação de um teste cujo potencial de venda seja muito reduzido. Um editor procura, pelo menos, um equilíbrio entre o seu investimento e o retorno que obtém com a venda do teste. Significa que, quanto maior for o potencial comercial do teste, maior a disponibilidade do editor para financiar o projeto de investigação.


2. Obter os direitos de adaptação e/ou de comercialização do teste


Esta fase requer a negociação de inúmeros aspetos, que vão muito além do que o simples pagamento de royalties. Salientamos aqui alguns deles: 

  • Qual a percentagem de royalties a pagar ao editor/autor? O editor/autor exige um valor mínimo de royalties, independentemente do número de exemplares vendido anualmente? 
  • É necessário o pagamento de uma taxa inicial, correspondente à transmissão dos direitos de adaptação e/ou de comercialização? 
  • Qual a duração do contrato? Quais as condições para o cancelamento do contrato (p.e., existem editores que querem reservar-se o direito de cancelar o contrato antes do seu término e sem que haja qualquer justa causa)? 
  • Qual o prazo para a publicação do teste? Existe alguma penalização em caso de incumprimento deste prazo (p.e., existem editores que se reservam o direito de rescindir o contrato se o prazo de publicação não for cumprido)? 
  • Existe algum número mínimo (ou máximo) de exemplares em cada edição e existe algum número máximo de edições?


3. Construir/adaptar o teste


Esta fase é comum a qualquer projeto de investigação. A construção/adaptação de um teste deve cumprir com todos os requisitos inerentes à condução de um projeto científico desta natureza, em termos de aspetos como: fiabilidade, validade, dimensão e qualidade das amostras normativas utilizadas, qualidade dos materiais, qualidade do manual, etc.

Mesmo quando se trata da adaptação de um instrumento já existente, esta não deverá ser assumida como uma simples tradução dos itens. O processo de adaptação de um teste implica exatamente as mesmas fases que a construção de raiz de um instrumento. A única vantagem é que já existe um domínio de conteúdo definido e os itens que o avaliam já estão construídos. Tudo o resto, é necessário fazer: estudos de fiabilidade, de validade, amostra normativa, etc.


4. Publicar o teste


Aquando da publicação do teste, é necessário garantir que os materiais têm qualidade e que o seu preço de custo permite um preço de venda aceitável.

Por outro lado, se os profissionais não tiverem conhecimento da existência do instrumento, dificilmente poderão adquiri-lo. Assim, na fase de publicação, a definição de um plano de marketing é essencial, de modo a garantir que a informação acerca do teste chega a um número significativo de profissionais.




Concluindo, o processo de construção ou de adaptação de um teste ou prova psicológica não é linear, nem simples, nem rápido. Nesse sentido, a rentabilização do trabalho envolvido torna-se fundamental, pelo que a comunicação com editores é essencial de modo a que a investigação neste domínio seja cada vez mais relevante e responda a necessidades reais existentes na prática profissional.



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