Desafios à Construção, Adaptação e Publicação de Testes Psicológicos (II)


No 4º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses foi organizado um painel OPP dedicado ao tema “As dificuldades inerentes à edição e comercialização de testes e provas psicológicas”.
No artigo que publicámos anteriormente abordámos um dos temas discutidos neste painel: etapas inerentes à adaptação e publicação de testes e provas psicológicas (pode lê-lo clicando aqui).
Hoje, é nosso objetivo explicar o que as editoras e os autores têm de ter em consideração quando definem o preço de venda dos testes psicológicos.

Antes de apresentarmos a multiplicidade de variáveis que têm de ser consideradas no cálculo do preço de um teste, é importante deixar claro que a publicação de um teste (ou de um livro) tem como objetivo último garantir que existe um retorno do investimento, ou seja, que a relação esforço-benefício é positiva.
Uma empresa precisa de ter lucro para subsistir e as editoras não são exceção, tal como não o são os autores que publicam diretamente os seus livros e testes.


Passemos então à análise das diferentes variáveis que um editor tem de considerar no momento de calcular o preço de um teste ou prova psicológica:


1. Tempo

 

Quer a construção, quer a adaptação de um teste (se for bem feita) leva vários anos. Durante este período apenas há lugar a investimento de recursos materiais e humanos.
Nesse sentido, a variável tempo tem de ser considerada no cálculo do preço do teste.


2. Pessoas


A construção ou a adaptação de um teste envolve diversos profissionais: equipa de investigação, editora, outros profissionais (colaboradores que efetuam a recolha da amostra normativa, por exemplo). Todos estes têm de ser remunerados de alguma forma (remuneração mensal, pagamento por aplicação, oferta de materiais, pagamento de inscrição em conferências, etc.).

Os custos associados à remuneração das pessoas envolvidas é outra variável a ter em consideração no cálculo do preço do teste.



3. Royalties e outros custos associados ao contrato


Além do pagamento de royalties ao editor ou ao autor que detém os direitos do teste, existem outros custos associados ao contrato: se o editor/autor exige o pagamento de um valor mínimo de royalties independentemente do volume de vendas, se foi paga alguma taxa inicial pela cedência dos direitos.
Esta é mais uma variável a ter de ser incluída na equação.



4. Materiais


Quando um editor publica um teste, logo à partida, tem de ter capacidade de assegurar os custos associados à produção da totalidade da edição.
Muitas vezes, além da produção e impressão que é feita a nível nacional, é necessária a importação de materiais, o que aumenta significativamente o preço de custo.
Para além do preço de custo dos materiais (produzidos pelo editor ou importados), há que ter em consideração os custos associados ao risco de serem produzidos ou adquiridos materiais que acabarão por não ser vendidos. Antes de um teste ser publicado é feita uma previsão de vendas, de modo a assegurar que não existirá um excedente de stock. Ainda assim, existe sempre o risco de as expectativas não serem alcançadas.
Estas duas variáveis (materiais e previsão de vendas) são também elas consideradas na equação.



5. Reprodução ilegal


Infelizmente, esta é uma variável que acaba por ter um peso significativo no preço final de um teste.
Considerando que a publicação de um teste tem subjacente a existência de alguma margem de lucro, o facto de a editora ou o autor terem consciência de que a reprodução ilegal será uma constante, conduz a que a perda desta margem com as cópias indevidas tenha de ser considerada no preço final.
A este respeito, há que referir a profunda injustiça de serem os profissionais que fazem uma utilização ética e legal dos testes e provas psicológicas, adquirindo materiais originais, aqueles que são penalizados pelas ações ilegais e indevidas dos outros.



Concluindo, quando um profissional ou uma instituição está a adquirir um teste ou prova psicológica, não está simplesmente a adquirir uma folha, um caderno ou um conjunto de materiais; está a adquirir todo o trabalho, investimento financeiro e tempo que muitas pessoas dedicaram à produção desses materiais.
O aspeto que poderá contribuir de forma significativa para a diminuição do preço a que os testes são comercializados é a utilização de materiais originais e a recusa das reproduções ilegais.
A este respeito é importante referir ainda que grande parte dos lucros das editoras de testes psicológicos são utilizados em novos projetos de construção e adaptação de novos instrumentos. Significa que, quanto menor a margem de lucro, menor a capacidade de as editoras investirem em projetos significativos, o que acabará por refletir-se no portefólio de testes psicológicos disponível para utilização em avaliação psicológica (i.e., menor número de provas construídas ou adaptadas para a população portuguesa e menor frequência na renovação das tabelas de normas dos testes ou provas psicológicas já publicadas).

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