Incongruência de Género: aceitar a diferença.


Motivados pela sua vinda a Portugal, convidámos Alexandre Saadeh, autor do livro "Como lidar com a Disforia de Gênero (Transexualidade), para nos falar um pouco sobre esta temática e o seu enquadramento na história portuguesa e brasileira.


1- Um pouco de história


Portugal, 2019...

Desde que se integrou na Comunidade Europeia, Portugal passou a considerar expressões e comportamentos ligados à sexualidade de maneira mais ampla, e se me permitem, mais continental, mais inclusivos e socialmente aceitos. A Disforia de Gênero, Incongruência de Gênero e mesmo a transexualidade já são realidades na atualidade portuguesa. Não que anteriormente não fossem, mas o reconhecimento do fenômeno era muito pouco falado.

Portugal e Brasil se entrelaçam na história, na língua e em muitos costumes e valores. Correto que até bem pouco tempo os caminhos entre os dois países andaram meio que distintos, mas os dois povos têm muito a compartilhar, incluindo aí evidências, experiências e possíveis soluções. Torcemos para que relativo à Disforia de Gênero também.


Brasil, 2019...

Vinte e dois anos após a primeira Resolução do Conselho Federal de Medicina a realidade brasileira tem mudado, para melhor.

Somos o país que mais mata travestis e transexuais, isso é uma verdade, mas o processo de inclusão social e de acompanhamento para essa população, historicamente excluída socialmente, tem aumentado. De forma evidente em São Paulo, onde diversas entidades de apoio e acompanhamento à população transexual têm feito diferença no processo de inclusão.

Especialmente a Medicina brasileira, que por muitos anos relegou à invisibilidade a população transexual por conta dos processos sofridos pelo Professor Doutor Roberto Farina nos anos 70 e em plena ditadura militar, hoje procura oferecer serviços que incluam, respeitem e promovam Saúde para transexuais, travestis e outras formas identitárias.

De maneira única com crianças e adolescentes. Meu trabalho com transexuais iniciou na década de 90 do século XX com a população adulta. Algo sempre me intrigava, pois no relato de vida, anamneses, da população adulta, a maioria avassaladora informava que tudo começara na infância e que na adolescência, com as mudanças corporais típicas, o sofrimento se agravara, gerando isolamento, bullying, depressão, abuso de drogas, tentativas de suicídio e automutilações.

Em 2010, quando montei o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (AMTIGOS-IPq-HCFMUSP), a procura por acompanhamento médico e cirúrgico era apenas de adultos.

No final do ano de 2010, surgiram os dois primeiros adolescentes de 17 anos de idade e no final de 2011 a primeira criança com 04 anos de idade.



2- O trabalho


Desde então, já triamos mais de 700 pessoas, sendo dessas cerca de 300 adolescentes, 150 crianças e o restante adultos. Desde 2015 não realizamos mais triagens para a adultos, só crianças e adolescentes.

Temos em acompanhamento hoje cerca de 80 crianças e mais de 200 adolescentes.

A questão de incongruência de gênero em crianças ainda é tabu em vários países. O Brasil não é exceção. Recebemos crianças de todo o Brasil, pois fomos o primeiro ambulatório especializado nesse tipo de acompanhamento. Hoje existem mais dois no país.

Vários profissionais de diferentes especialidades questionam o diagnóstico e o acompanhamento realizado. Muitas vezes por ignorância em relação ao tema.

O cuidado diagnóstico, entendendo diagnóstico como uma caracterização necessária para o estabelecimento de uma intervenção médica e não como sinônimo de doença, é cuidadoso e específico.

A grande maioria dos pais procura o AMTIGOS por questões comportamentais de seus filhos. Acolhemos essa demanda, mas nosso foco é como a criança vivencia sua identidade de gênero, como se percebe. Se sua vivência de gênero é intensa, persistente e consistente em sua vida cotidiana.

Muitos pais chegam extremamente culpados e desorientados, a beirar o desespero. Mas não se trata de culpa. De ninguém. Nem dos pais, nem da criança. É algo que possui uma base orgânica e que irá se manifestar queiramos ou não.

Distinguir de comportamento efeminado ou masculinizado é uma obrigação. Diferenciar de encantamento com universo dito feminino ou masculino, também.

Durante a infância, nada além de observação e psicoterapia (quando indicada) é realizado.

Bloqueio do eixo hipotálamo-hipófise, visando retardar a puberdade para maior segurança de todos, só é indicado em fase Tanner 2, com avaliação de endocrinologistas pediátricos.

A hormonioterapia cruzada, com hormônios condizentes com a real identidade de gênero, só a partir dos 16 anos de idade e com consentimento de todos.

Cirurgia no Brasil, só após os 21 anos de idade. Há previsão de mudança, mais ainda é assim por aqui.

Além disso, o acompanhamento das famílias é fundamental e ocorre uma vez por mês. O grupo de pais de crianças é um espaço afetivo e de orientação fundamental quando se pensa no trabalho longitudinal. Com os pais dos adolescentes, uma vez é só com os pais e no mês seguinte com os pais e os adolescentes.

Além de todo esse trabalho médico, incluímos na equipe Assistente Social, Psicólogos, Fonoaudióloga, Pediatra, Enfermagem e quem mais quiser se interessar e contribuir nesse acompanhamento.

Realizamos encontros trimestrais com Escolas e Abrigos, instrumentalizando esses locais a lidar com essa possibilidade e diversidade.

Além disso, trabalhamos com matriciamento de equipes de saúde que se interessem pelo tema, participamos de Congressos, palestras, entrevistas e outros canais para divulgar o tema.



3- Proposta maior


Com crianças, o trabalho é preventivo; com adolescentes, diminuição de eventos ruins e com adultos, reparação.

Propiciar ambiente e possibilidade de uma criança poder ser quem realmente é e viver isso em sua integralidade é difícil de explicar. Sintomas disfóricos, depressivos, de autodestruição desaparecem. Essa criança pode passar a viver de maneira integral. O mesmo acontece com os adolescentes, mas deve-se levar em conta que as mudanças corporais ocorridas na puberdade podem gerar estresse, disforia e depressão.

Ano passado, em Portugal, ouvi uma frase de surpresa quando estava a falar sobre a experiência do AMTIGOS:
“Como podem existir tantas crianças e adolescentes transexuais no Brasil? Cá em Portugal não os temos”...

Eles existem, mas estão invisíveis para vocês. Se abrirem uma pequena brecha verão que essas famílias, crianças e adolescentes, que sofrem muito, procurarão ajuda.



O livro “Como lidar com a disforia de gênero (transexualidade): guia prático para pacientes, familiares e profissionais de saúde” da Editora Hogrefe, vem para ajudar e contribuir nessa construção de um projeto de saúde mais amplo que abarque todas as expressões de gênero possíveis.




Alexandre Saadeh: médico, psiquiatra, psicodramatista, Coordenador do AMTIGOS-IPq-HCFMUSP. Médico Supervisor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Professor Doutor no curso de graduação em Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP.

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