Diretrizes da APA sobre avaliação à distância


Numa altura bastante atípica para a avaliação psicológica, a APA (American Psychological Association) divulgou algumas orientações e conselhos sobre a prática da psicologia neste período. Porque entendemos que esta informação poderá ser útil à maioria dos psicólogos, apresentamos aqui um breve resumo dos cuidados fundamentais a ter na avaliação à distância.

A administração de qualquer teste psicológico rege-se por um conjunto de procedimentos estandardizados, mais ou menos complexos. O respeito por tais procedimentos permite ao psicólogo comparar os resultados do teste (obtidos por um determinado sujeito) com os dados de uma amostra de referência – este respeito é fundamental para que os resultados do sujeito sejam considerados válidos. Então, qual será o impacto se alterarmos esses procedimentos?

A aplicação/utilização de um teste (construído e validado para administração presencial) num processo de avaliação à distância requer, logicamente, alguns ajustes/cuidados. Esta alteração de procedimentos deve ser feita com cuidado, ponderação e deliberação, dando especial atenção à maneira como as próprias alterações podem modificar os resultados. Os seis princípios enumerados pela APA, chamam à atenção para aspetos relevantes e deixam sugestões que podem ajudar os psicólogos a repensar o processo de avaliação psicológica, dentro das atuais restrições físicas de distanciamento.


1. Não comprometa a segurança do teste

Embora alguns materiais e procedimentos necessitem de modificações para permitir a sua utilização à distância, os psicólogos devem ter a certeza de que não estão a comprometer a segurança do teste. Enviar cópias de materiais dos testes (p.e., cadernos com itens, folhas de respostas, cópias de estímulos para tarefas psicomotoras, etc.) é expressamente proibido. Para além de corresponder a uma infração dos direitos de autor/editor está a contribuir para a disseminação de informação confidencial, que não pode ficar no poder dos sujeitos uma vez que há o risco destes o distribuírem por terceiros (i.e., familiares, amigos, colegas, etc.).


2. Faça o melhor que puder, com o que está disponível (conscientemente e eticamente) 

É importante que os psicólogos reconheçam o limite deste formato de “aplicação online” e que considerem se esta abordagem é apropriada, tendo em conta o motivo da avaliação, as evidências, as características do sujeito e a sua experiência profissional. Os profissionais devem fazer o possível por manter os procedimentos o mais próximo possível da aplicação tradicional presencial. A monitorização remota da administração do teste, mesmo quando se trate de instrumentos de autoavaliação (p.e., questionários de personalidade), é essencial.


3. Seja rigoroso relativamente à qualidade dos dados

Até ao momento, as pesquisas relativas à equivalência da avaliação remota e online comparativamente com a avaliação tradicional e presencial, são limitadas. Os psicólogos devem pensar em todas as tarefas administradas e decidir o quanto a qualidade dos dados recolhidos poderá ter sido afetada pelo formato de aplicação.


4. Pense, criticamente, sobre substituições de testes e subtestes 

Haverá, certamente, alguns testes e subtestes que não poderão ser aplicados à distância. No entanto, os psicólogos poderão considerar tarefas que utilizem construtos semelhantes. Tenha em atenção que os resultados mais robustos e significativos em testes multidimensionais são, tipicamente, os que correspondem aos compósitos (p.e., dimensões, áreas, índices, etc.) em vez dos resultados individuais das escalas. 


5. Amplie os “intervalos de confiança” ao tomar decisões clínicas

A avaliação psicológica exige que os psicólogos usem o seu julgamento clínico na interpretação das pontuações dos testes, incluindo a sua margem de erro, dentro do contexto de fatores individuais ou contextuais.
A integração dos dados do teste, sendo derivados de procedimentos de administração não padronizados, amplia a margem de erro. É importante que os psicólogos sejam ponderados e explícitos sobre os intervalos de confiança mais amplos e sobre o potencial de erro no processo de administração, interpretação e apresentação dos resultados.


6. Mantenha os mesmos padrões éticos de atendimento dos serviços tradicionais de avaliação psicológica 

Os princípios éticos subjacentes ao Código de Ética da APA são construídos sob o fundamento de fazer o bem, evitar danos e ser fiel e justo no nosso trabalho. Estes princípios devem manter-se intactos durante este período de crise. Isto inclui garantir que o processo de consentimento informado é cumprido e que este é o mais completo e claro possível. É importante ser transparente sobre as novas circunstâncias em que a avaliação foi realizada, bem como sobre as considerações que foram feitas sobre a forma como os dados foram interpretados, considerando as alterações, e integrados com outras informações.




Este artigo, criado em resposta à crise da COVID-19, é um breve resumo das diretrizes propostas pelo Board of the Society for Personality Assessment e Division 12 (Society of Clinical Psychology) da APA, para a avaliação à distância. O documento original, em inglês, pode ser consultado aqui.



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