A perturbação de acumulação


A estreia em 2010 de um programa num canal disponível por cabo levou os seus telespectadores a contactar com uma realidade até então desconhecida de muitos, a perturbação de acumulação.

O que teria levado aquelas pessoas a acumular objetos de forma a deixarem de conseguir, por exemplo, utilizar a cozinha para preparar refeições ou o quarto para dormir? Tornou-se um caso de atração perceber como teriam chegado àquele ponto.


As diferenças/semelhanças entre a perturbação de acumulação e a perturbação obsessivo-compulsiva (POC)

O livro Hoarding Disorder1 apresenta alguns exemplos em que estas perturbações se podem confundir com a POC, como o de alguém que tenha padrões perfeccionistas ou compulsivos, que tenha obsessões que incidam na simetria, exatidão e ordem, que pode sentir ansiedade com a perspetiva da limpeza e arrumação e, consequentemente, não conseguir lidar com a situação de acumulação.

Ainda que não haja um consenso generalizado sobre o que difere entre a POC e a perturbação de acumulação, nos casos mais comuns de POC, o medo e a ansiedade dão lugar a pensamentos obsessivos e, como forma de alívio emocional, são adotados conjuntos de comportamentos repetitivos. Na perturbação de acumulação, além do medo e da ansiedade existe afeto, necessidade de ligação e desejo, de comprar e de ter algo a que se dá valor e em que se identifica importância e utilidade. O medo e a ansiedade estão relacionados ao poder precisar e não ter e à associação ao objeto do sentimento que a pessoa tem por si, gostando menos de si se optar por se livrar de algum objeto de que gosta.

No entanto, como perturbação, é uma situação que acaba por alterar de forma significativa e dificultar de forma grave a vida de quem com ela sofre, uma vez que os indivíduos são incapazes de se desfazerem de objetos por isso lhes causar ansiedade e sofrimento psicológico com a hipótese de separação dos respetivos bens.


Quando é que acumular começa a ser um problema?

Alguém que sofre com esta perturbação vive num contexto em que as diferentes divisões de um espaço deixam de poder cumprir a função que teriam inicialmente, tal o ponto de obstrução que já foi alcançado. Deixa de ser possível utilizar a cozinha para preparar refeições, não se conseguem alcançar armários ou abrir gavetas, as cadeiras estão ocupadas, o espaço de deslocação entre divisões e nas próprias divisões é diminuto.

O problema pode também tornar-se social, o acumular de objetos de forma pouco cuidadosa pode atrair e criar colónias de insetos e outros seres que vão infestando o próprio espaço e podendo também passar para espaços contíguos, pertencentes a vizinhos, por exemplo.


Tratamento

Nestas situações, a consciência do contexto em que se vive pode ser variável, no entanto, as capacidades de processar informação, de concentração e organização são mais reduzidas nestes casos, o que pode levar a que quem sofre com a perturbação viva na ilusão de que é apenas um pouco desorganizado ou desarrumado. Existe também um sentimento de emoção e satisfação quando se encontra ou se compra determinado objeto, que justifica o propósito da acumulação e que traz bem-estar a quem acumula, o que dificulta o tratamento.

O processo mais escolhido para tratar esta perturbação é a terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada à perturbação de acumulação. A TCC é um modelo de intervenção que ajuda quem a ela recorre a identificar modelos de pensamento perturbadores, que têm uma influência negativa no comportamento e nas emoções, e a alterá-los gradualmente. Esta forma de pensar pode contribuir para o agravamento de dificuldades emocionais que criam barreiras na maneira de reagir e lidar com os diferentes obstáculos que surgem.


Neste sentido, o livro Hoarding Disorder pode ser um importante instrumentos para os profissionais que queiram aprofundar o seu conhecimento sobre esta perturbação mas, principalmente, para aqueles que pretendam conhecer estratégias para o seu tratamento.


1 Chasson, Gregory S., Siev, Jedidiah, Hoarding Disorder, 2019, Hogrefe Publishing

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