O Exame Geronto-Psicomotor ao serviço da intervenção psicomotora



Avaliação Psicomotora

A avaliação psicomotora em geriatria foca-se nos diferentes processos e mecanismos que causam distúrbios na motricidade intencional e que afetam o resultado do ajustamento percetivo-motor (Martin & Albaret, 2013). A avaliação do idoso tem tido uma importância crescente na deteção precoce de perturbações cognitivas ou mentais e como um meio complementar de diagnóstico de demências (nomeadamente a avaliação neuropsicológica) (Bartfay, Bartfay, & Gorey, 2014). A deteção precoce de défices cognitivos e declínio funcional é crítica, devido ao risco aumentado no desenvolvimento de demência (Bartfay, et al., 2014). Os estudos parecem indicar a necessidade de avaliação em diversas áreas – capacidade visuoespacial, funções executivas, atenção, velocidade de execução – para que seja possível estabelecer um diagnóstico precoce dos défices cognitivos, sendo que a avaliação somente da área da memória não é suficiente (Johnson, Storandt, Morris, & Galvin, 2009). O psicomotricista tem assim a possibilidade de identificar as áreas problemáticas e as potencialidades do idoso e planear uma intervenção que promova oportunidades de melhorar a qualidade de interação entre as funções e estruturas do corpo do sujeito e as condições ambientais do contexto onde se insere (Albaret et al., 2001).

Esta avaliação antecede a intervenção psicomotora que integra intervenções baseadas na ação e mediação corporal tendo como objetivo o desenvolvimento das funções cognitivas, emocionais e comportamentais (Probst, Knapen, Poot, & Vancampfort, 2010). Baseada numa visão integral do ser humano, no contexto psiquiátrico, a intervenção psicomotora constitui um complemento e apoio ao tratamento farmacológico (Probst, et al., 2010).


Etapas da Avaliação Psicomotora

A avaliação psicomotora envolve essencialmente três etapas: entrevista, observação do comportamento espontâneo e a aplicação de testes adequados (Martin & Albaret, 2013). Segundo estes autores, a entrevista possibilita a recolha de dados importantes para o diagnóstico psicomotor, como a história médica, educacional e ocupacional. Durante a entrevista também é possível observar elementos como o comportamento motor (e.g.: presença de tremor), a capacidade de comunicação verbal (e.g.: fluidez do discurso) e não-verbal (e.g.: gesticulação), a auto-perceção do seu contexto de vida ou a motivação para uma intervenção terapêutica (Michel et al., 2011).

Os instrumentos de avaliação aplicados deverão ser estruturados ou padronizados, permitindo tanto medições quantitativas, referentes a normas, como avaliações qualitativas e, portanto, envolvendo alguma subjetividade e interpretação pessoal (Frémontier & Aquino, 2011).

O único instrumento de avaliação psicomotora realmente concebido para a população idosa e adequadamente validado para a população portuguesa (Michel et al., 2011) é o Exame Geronto-Psicomotor. Os seus autores pretenderam elaborar um instrumento de avaliação das competências psicomotoras do idoso, com uma duração de aplicação razoável e que permita uma leitura completa e complementária dos diferentes domínios cognitivo-psicomotores, com medidas quantitativas e qualitativas (Frémontier & Aquino, 2011).


Diagnóstico e planificação da intervenção psicomotora

O EGP pode ser utilizado para a realização de um diagnóstico psicomotor individual ou para a caracterização de um grupo, dependendo dos objectivos do psicomotricista, da equipa multidisciplinar e do contexto institucional. Há que referir que o diagnóstico puramente clínico não fornece informação suficiente sobre as capacidades da pessoa idosa, sendo fundamental aprofundar esta fase preparatória da intervenção.

O EGP permite construir um plano de intervenção contemplando as áreas fortes e fracas nas seguintes competências: equilíbrio estático, equilíbrio dinâmico, mobilizações articulares, praxias, motricidade fina dos membros superiores e inferiores, conhecimento das partes do corpo, vigilância, perceções, memória verbal, memória percetiva, domínio espacial e temporal e comunicação verbal e não-verbal.

A informação recolhida pode ser sintetizada e partilhada através de um relatório clínico e posteriormente transformada em objectivos gerais e específicos de intervenção, com a devida calendarização. Neste sentido, o EGP adapta-se à duração de intervenção (ex. curto, médio e longo-prazo), podendo ser aplicado ao longo das suas diferentes fases – avaliação inicial, avaliação durante o processo terapêutico (pré-estabelecida pelo psicomotricista e sempre que necessário) e avaliação final. O EGP pode também ser aplicado complementarmente a outros instrumentos de avaliação das competências cognitivas ou da capacidade funcional. Na realidade, uma avaliação completa da pessoa idosa é um meio de mudança de mentalidade nas práticas geriátricas e uma possibilidade de atingir um trabalho de equipa verdadeiramente interdisciplinar (Poulsen, Hesselbo, Pietersen, & Schroll, 2005), através de uma partilha aberta e transparente dos resultados e projectos de intervenção.

Uma caracterização detalhada do indivíduo ou do grupo é fundamental uma vez que permite um conhecimento aprofundado e específico das características do domínio psicomotor, que facilitará a adequação dos serviços e objetivos estabelecidos, às suas necessidades, contribuindo desta forma para uma melhor qualidade de vida.


Recomendações para a intervenção


Através da recolha de informações com o EGP sugerimos a definição e integração das seguintes informações no projecto de intervenção:
  • Sessões de psicomotricidade em grupo ou individual;
  • Domínios psicomotores alvo de intervenção;
  • Objectivos de intervenção;
  • Calendarização;
  • Frequência da intervenção;
  • Duração aproximada das sessões;
  • Tarefas/actividades propostas e respectivo material;
  • Complementaridade com outras terapias.

[Um artigo escrito por Ana Morais, Sofia Santos e Paula Lebre, autoras da adaptação portuguesa do EGP]


Bibliografia

Martin, E. & Albaret, J.M. (2013). Psychomotor Examination and the Assessment of the Elderly. In: M. Ségard, B. Hátlová e T. Louková (Edts). Psychomotor Therapy in Elderly Care. (65-73). Czech Republic: University J.E.Purkyně in Ustí nad Labem;
Bartfay, E., Bartfay, W. & Gorey, K.(2014). Association of diagnostic delay with impairment severity among institutional care facility residents diagnosed with dementia in Ontario, Canada. Geriatrics & Gerontology International, 14:918–925, doi: 10.1111/ggi.12196;
Johnson, D., Storandt, M., Morris, J. & Galvin, J. (2009). Longitudinal study of the transition from healthy aging to Alzheimer disease. Archives of Neurology, 66:1254-1259, doi: 10.1001/archneurol.2009.158;
Probst, M., Knapen, J., Poot, G. & Vancampfort, D. (2010). Psychomotor Therapy and Psychiatry: What´s in a Name? The Open Complementary Medicine Journal, 2:105-113, doi: 10.2174/1876391X010020010105;
Albaret, J. (2003). Intérêt de la mesure dans l'examen psychomoteur. Evolutions Psychomotrices, 60: 66-75;
Frémontier, M. & Aquino, JP. (2011). Psychomotriciens et maladie d’Alzheimer. La lettre de l’observatoire des dispositifs de prise en charge et d’accompagnement de la maladie d’Alzheimer, 22: 1-12 ;
Michel, S., Soppelsa, R. & Albaret, J.M. (2011). Examen Geronto Psychomoteur-Manuel D'Aplication. Paris: Hogrefe;
Poulsen I., Hesselbo B., Pietersen I. & Schroll M. (2005). Implementation of functional assessment scales in geriatric practice: A feasibility study. Scandinavian Journal of Public Health, 33: 292–299. doi: 10.1080/14034940510005806.

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