Em que se baseia o NeuroRi?

A construção do NeuroRi assenta em três princípios fundamentais: plasticidade cerebral, reserva cognitiva e validade ecológica. Além disso, contempla uma abordagem multi-domínios e tem subjacente uma componente lúdica, daí a designação “Ri”, pretendendo-se que as sessões de estimulação cognitiva sejam entusiasmantes, motivando a pessoa para as atividades.


Plasticidade cerebral

A investigação neurocientífica tem comprovado a capacidade do cérebro humano para se adaptar ao ambiente após lesão ou doença cerebral. Considerando este potencial, a estimulação cognitiva tem um importante papel na recuperação das funções cognitivas comprometidas por lesão ou doença neurológica ou outra patologia com implicações neurocognitivas.


Reserva cognitiva

A reserva cognitiva é a capacidade para adquirir conhecimento, perante as alterações cerebrais resultantes do processo de envelhecimento normal ou de patologia neurocognitiva. A reserva cognitiva contribui para uma melhor adaptação face ao envelhecimento, à lesão ou à doença cerebral. A reserva cognitiva é potenciada pela realização de atividades cognitivamente estimulantes ao longo da vida. Neste sentido, o NeuroRi contempla uma grande diversidade de atividades desenvolvidas com o objetivo de potenciar as capacidades cognitivas preservadas e prevenir o declínio cognitivo, assim como melhorar as funções cognitivas comprometidas devido a patologia neurológica ou outra com afetação neurocognitiva.


Validade ecológica

A validade ecológica consiste na generalização dos resultados obtidos no contexto de intervenção para as atividades cognitivas da vida diária. Assim, um programa de estimulação cognitiva deve implicar, entre outros, tarefas que se assemelhem às realizadas no contexto de vida natural da pessoa e estímulos representativos desse contexto, para que se verifique um impacto positivo da intervenção no quotidiano da pessoa. O NeuroRi foi construído com base neste princípio, incluindo não só atividades e estímulos representativos do mundo real, como também sugestões para tornar algumas atividades mais ecologicamente válidas, como a utilização de dinheiro nas atividades de cálculo financeiro.


Estimulação cognitiva multi-domínios

A organização cerebral reflete-se em diferentes domínios, como a atenção, a memória, a linguagem, o cálculo, as capacidades visuopercetivas e construtivas e as funções executivas. A atenção é essencial para o desempenho de atividades em ambientes complexos, como ler o jornal num café, ou para selecionar a informação a memorizar. A memória contribui para a manutenção da identidade, permitindo-nos registar diferentes acontecimentos e experiências, evocando-os mais tarde. A linguagem expressiva e compreensiva é a base da comunicação em que assentam as relações humanas. O cálculo é uma competência essencial para a gestão das finanças domésticas. As capacidades visuopercetivas e construtivas são fulcrais para a capacidade de calcular distâncias, de navegação e análise de mapas, assim como para a montagem de objetos. Por sua vez, as funções executivas regulam o funcionamento das funções cognitivas anteriores e estão na base da capacidade de planeamento das ações, da realização simultânea de múltiplas tarefas do quotidiano, de inibir respostas automáticas, de resolver problemas e aprender com os erros, e de avaliar e regular o comportamento. As diferentes funções cognitivas apresentam uma relação de interdependência entre si, o que faz com que queixas relativas a uma função possam estar associadas com outras funções. Assim e de acordo com a literatura científica, os programas de estimulação cognitiva direcionados para múltiplos domínios são mais eficazes do que aqueles que se direcionam para uma única função cognitiva como a memória.

O NeuroRi baseia-se nestes princípios e, ao contemplar diferentes níveis de dificuldade para cada uma das funções cognitivas, permite a adequação a pessoas com diferentes níveis de funcionamento cognitivo. Assim, recomendamos a estimulação dos múltiplos domínios cognitivos considerando os resultados da avaliação neuropsicológica e começando em diferentes níveis de dificuldade do NeuroRi conforme a gravidade dos défices apresentados.

[Um artigo escrito por Joana Pinto, Emanuela Lopes e Bruno Peixoto, autores do NeuroRi]

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